Você é um palhaço! Elogio ou Crítica?

Você é um palhaço! Elogio ou Crítica?

Esta semana recebi um telefonema de um possível cliente solicitando uma palestra para sua empresa. Enfático ele perguntou:

“Você faz palhaçadas nas suas palestras?”. Rapidamente meu “hd interno” processou todas as possíveis conotações de “palhaçadas”.

Pensei em devolver a pergunta com outra para saber o que ele pensava sobre palhaços e palhaçadas, perguntando: “o que o senhor considera palhaçada?”. Mas julguei uma saída covarde e óbvia. Decidi arriscar sendo verdadeira. Respondi: “Sou uma palestrante, não tenho o dom de um palhaço, até consigo fazer as pessoas rirem, mas estou longe de poder reinar num picadeiro.”

O empresário seguiu dizendo que viu uma foto minha na internet vestida de palhaço e não entendeu em que contexto isso contribuiria para motivar pessoas, esbravejou contra o humor, o que ele chamou de febre de “stand up comedy” e de palestrantes palhaços.

Há alguns anos atrás eu criei um personagem o “Palhaço Clientão” (essa era a foto na internet), fiz muitos profissionais de serviços rirem com situações sobre a relação atendimento/cliente, que seriam trágicas, mas que este palhaço transformava em cômicas. Confesso que criar e dar vida a esse personagem era tarefa prazerosa, mas difícil. Fazer rir não é tarefa fácil.

A contratação da palestra não avançou, pois, o empresário não obteve de mim a certeza que não sou uma “palhaça”.

A palavra palhaço deriva do italiano paglia, que quer dizer palha, material usado em colchões. O nome começou a ser usado porque a primitiva roupa desse cômico era feita do mesmo pano que revestia os colchões.

palhaço é lírico, inocente, ingênuo, angelical e frágil. O palhaço não interpreta, ele simplesmente é. Ele não é um personagem, ele é o próprio ator expondo seu ridículo, mostrando sua ingenuidade. Na busca desse estado, o ator, portanto, não busca construir um personagem, mas sim encontrar essas energias próprias, buscando transforma-las em seu corpo. Para tanto, cada ator desenvolve esse estado pessoal, de palhaço, com características particulares e individuais. (*).

Na linguagem coloquial, o termo palhaço designa o comportamento de uma pessoa que não leva a vida a sério e que não deve ser levada a sério, que diz tolices, que faz os outros rirem.

Ao decidir escrever essa crônica pesquisei algumas frases, esta do Palhaço XUXU – Luiz Carlos Vasconcellos, em especial me fez refletir: “Cultivemos o riso contra as armas que destroem a vida. O Riso que resiste ao ódio, à fome e as injustiças do mundo. Cultivemos o riso. Mas não o riso que descrimina o outro pela sua cor, religião, etnia, gostos e costumes. Cultivemos o riso para celebrar nossas diferenças.”

Eu complemento: para enfrentar nossas dores e angustias, o estresse do dia a dia, a frustração e o desencanto.

Não me ofendo de ser chamada de palhaça. Quero levar o riso e o entusiasmo para todos que sonham e querem fazer acontecer, que transformam limões em limonada, que acreditam na vida.

E você já fez uma palhaçada hoje?

 

(*) FERRACINI, Renato. A Arte de Não Interpretar Como Poesia Corpórea do Ator. 2. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2003. 3000 p

Nenhum comentário

Adicione seu comentário